15 novembro 2005

Helder Silva em entrevista


“Os jornalistas têm que repensar o jornalismo em Portugal”

Helder Silva é um dos pivots do “Jornal da Tarde” da RTP. Em entrevista revela que o jornalismo em Portugal deverá ser repensado e que não é contra a violação do segredo de justiça. Este pivot aprecia a forma como são feitos os tablóides e não vê o jornal da TVI.

José Manuel Monteiro: O Hélder Silva é um dos rostos do “jornal da Tarde”. Qual o comentário que faz à afirmação de que os pivots de informação deixam de ser jornalistas e passam a ser uma espécie de “show men”?

Hélder Silva: Em alguns casos admito que isso seja verdade. Não se pode generalizar como em tudo na vida. Acho que essa generalização, no meu caso, não faz sentido. Continuo a ser jornalista para além de apresentar o “Jornal da Tarde”. Eu continuo a fazer reportagens, aliás, foi uma das coisas que disse à subdirecção de informação da RTP Porto, quando fui convidado para fazer o “Jornal da Tarde”. Eu gosto muito de fazer reportagens. Por isso eu vou continuar a fazer reportagens; quero continuar a faze-las. Ora farei médias reportagens, ora grandes ou pequenas reportagens, ou reportagens do dia-a-dia. Ir para a rua contactar com as pessoas é primordial para que consigamos manter os “pezinhos” na terra e continuar a perceber como é que se fazem as notícias. Para além disso o contacto com as fontes é primordial no nosso trabalho de todos os dias e, portanto, quero continuar a fazer reportagens: sempre

JMM: Tem consciência que tem colegas seus que muitas vezes se sobrepõem à notícia, tornando-se eles próprios a notícia?

HS: Admito que sim. Numa ou noutra situação isso pode acontecer. Ás tantas é normal que assim seja. Os telejornais são os espaços de televisão, fora as telenovelas e os reality shows, mais vistos, e por isso as pessoas são reconhecidas na rua. Isso não me choca.

JMM: Quando faz pivot tem a preocupação de não se sobrepor à notícia?

HS: Tenho, todos os dias, essa preocupação de não ser o “show men”. Há uns dias vinha numa revista, sobre o meu trabalho, que eu impunha rigor à informação. Eu quero continuar a ouvir isso sempre. A minha perspectiva é essa. A notícia é a notícia. Eu sou apenas o rosto de todas as pessoas que diariamente fazem o “Jornal da Tarde”.

JMM: Quando se pergunta a um jovem estudante de jornalismo o que quer fazer nessa área, a maioria responde que quer ser pivot de telejornal. Quando estudava jornalismo respondia da mesma forma?

HS: Não. Ontem, à noite, tive uma conversa com uma pessoa sobre isso. Acho que os jovens que hoje querem ser jornalistas, querem sê-lo na perspectiva de aparecerem, de serem o “show men”, e não na perspectiva do trabalho jornalístico que se faz todos os dias. Enquanto pequeno nunca quis ser jornalista. Queria ser arquitecto. Um dia fui trabalhar numa rádio local e comecei a gostar do jornalismo; a gostar de fazer reportagens. Meti na cabeça que já não queria ser arquitecto mas jornalista. Formei-me na Escola Superior de Jornalismo do Porto e, simultaneamente, com os estudos trabalhava na “rádio nova” no Porto. Fui sondado para trabalhar para a RTP e aceitei. Nunca tive a perspectiva de ser pivot. Já estava na RTP há um ano quando me convidaram para apresentar o “regiões”. Era uma experiência que não tinha. Foi um desafio que aceitei e pelos vistos não desiludi.

JMM: Considera que para se ser pivot de telejornal é necessário ter uma “certa imagem”?

HS: Acho que há de facto essa preocupação.

JMM: Não tem que se ser bom jornalista? A imagem conta mais?

HS: Um bom pivot nunca poderá ser um mau jornalista. Pode ser bom pivot e não tão bom repórter; pode não escrever bem reportagens; pode não ter a percepção da notícia no terreno tão bem como os repórteres que andam todos os dias no terreno. Isso admito que assim seja. Agora um pivot terá que ter necessariamente imagem televisiva porque se não a tiver porventura terá dificuldades em fazer passar a mensagem para quem está em casa. Vou-lhe contar uma conversa que tive há uns tempos com o José Alberto Carvalho sobre isso: ele dizia-me que dizia aos alunos dele que um bom pivot não podia ser nem muito bonito nem muito feio. Se for muito bonito é “ruído”; se for muito feio é “ruído”.
Também não pode ser nem muito alto nem muito baixo. Deve ser o mais comum possível. Deve ser aquilo com quem as pessoas se possam identificar.

JMM: Ou seja, está a querer dizer-me que nem qualquer jornalista pode ser pivot por muita vontade que tenha.

HS: É a minha opinião.

JMM: E do José Alberto Carvalho.

HS: Pelos vistos comungamos da mesma opinião. Eu acho que nem qualquer jornalista pode ser pivot.

JMM: O “Jornal da Tarde” consegue liderar àquela hora. O que o torna diferente do “Primeiro Jornal” da SIC e do “TVI Jornal” da TVI para que tenha a preferência dos portugueses?

HS: A grande quantidade de informação que nós produzimos durante a manhã e que, eu acho, que os outros canais não fazem. As pessoas em casa apercebem-se disso. Acho que as pessoas em casa percebem que aquilo que podem ver no “Jornal da Tarde” são novas peças e novas histórias: histórias do dia. Os outros canais ainda recorrem muito ao dia anterior. A RTP está com uma imagem de seriedade e rigor nos seus programas informativos, fugindo um bocadinho àquilo que os outros canais, um mais do que o outro, continuam a fazer que é a notícia sensacionalista; a notícia de faca e alguidar. Acho que as pessoas percebem isso e, portanto, seguem o “jornal da Tarde”. Há um dado curioso: Se nós formos ver os estudos de audiências que são feitos, verificamos que o “Praça da Alegria” acaba à mesma hora do “SIC 10 horas” e acabam empatados. Isso tem acontecido praticamente todos os dias. Acontece que dois minutos antes do início do “Jornal da Tarde” e do “primeiro Jornal”, que são os dois jornais que competem mais directamente, a audiência da RTP dispara. Àquela hora as pessoas mudam de canal porque sabem aquilo que vão ver.

JMM: O “Jornal da Tarde” é um jornal mais regionalista; vai buscar mais as notícias do norte.

HS: Concordo consigo. É um jornal produzido no Porto e pelos vistos dá resultado. Seis em cada dez portugueses vivem no norte. São dados irrefutáveis. É por esses dados que temos de alinhar o nosso jornal e aquilo que fazemos para agradar a quem está do outro lado.

JMM: Como caracteriza o “TVI Jornal”?

HS: Não vejo. Não gosto.

JMM: Sente que a RTP está a mudar para melhor, para pior ou simplesmente está a mudar sem saber ainda bem qual o rumo que vai tomar?

HS: Acho que está a mudar para melhor desde há uns anos a esta parte. Não necessariamente agora em concreto. A RTP demorou muito a acordar desde que perdeu o monopólio da televisão. Desde que acordou tem vindo a mudar. Umas vezes em velocidade acelerada, noutras mais moderada ou a passo de caracol. Mas tem vindo a mudar todos os dias e acho que para melhor.

JMM: Concorda com o modelo do novo projecto do segundo canal da RTP?

HS: Poderia entregar-se o canal e produção televisiva a universidades e fundações que não desta maneira, mas esta é só a minha opinião pessoal.

JMM: Como caracteriza a RTPN?

HS: É um canal que ainda está a dar os primeiros passos. Não tem nada a ver com a NTV...

JMM: Para melhor?

HS: Sim, para melhor. Acho que ainda pode melhorar muito mais e o caminho é exactamente esse. A RTPN pode ser uma boa alternativa comparativamente com a SIC Notícias. A SIC Notícias vive muito à custa do internacional, aquilo que é enviado pelas agências internacionais. A RTPN, ao contrário da SIC, tem centros regionais espalhados pelo país. A SIC tem um ou outro correspondente pelo país. A RTP tem vários correspondentes espalhados pelo globo. A RTP tem potencialidade para pôr toda esta gente a trabalhar e produzir um canal de informação de raiz que não tenha que viver à custa desses “enlatados” internacionais de que vive a SIC Notícias.

JMM: Actualmente o jornalismo é mais agressivo, imediatista e competitivo. Pensa que o jornalismo tem que seguir neste caminho ou há que repensar o jornalismo em Portugal?

HS: O jornalismo deve ser competitivo e imediatista, mas os jornalistas têm que repensar o jornalismo em Portugal. Têm sido feitas coisas, por exemplo no âmbito do processo “Casa Pia”, que tem sido escandaloso. São atropelos éticos e deontológicos. Não me parece que seja esse o caminho. Não tarde nada andamos todos a levantar suspeitas uns sobre os outros.

JMM: É contra a violação do segredo de justiça?

HS: Não sou nada contra. Acho uma aberração o segredo de justiça. Vemos todos os dias violarem o segredo de justiça.

JMM: Deveríamos seguir, por exemplo, o modelo brasileiro em que os jornalistas têm acesso a todo o processo e acompanham as investigações?

HS: Não sou contra a existência de regras. Acho que actualmente não funcionam as que temos e está provado que não funcionam. Todos os dias o segredo de justiça é violado. Há jornais que transcrevem na íntegra decisões de Juízes. Isto é uma violação quando o processo ainda está em fase de inquérito.

JMM: Não será também um mau profissionalismo de algumas pessoas?

HS: É um mau profissionalismo de algumas pessoas e alguns jornais, canais de televisão e rádios. Deve ser repensada a forma como se trabalham as matérias do âmbito da justiça.

JMM: Como vê o aparecimento de certos tablóides em Portugal?

HS: São formatos que já existiam lá fora e que foram seguidos aqui.
Editorialmente não concordo. Concordo com o formato tablóide na perspectiva não do conteúdo mas da forma. O tablóide é um jornal que se lê como não se lê um jornal não tablóide. Se este tipo de jornais, enquanto forma, ajudar para que os portugueses leiam mais jornais, a mim não me choca. O que me choca é que os portugueses só lêem esses jornais pelo conteúdo, pela devassa da vida privada. Isto é a imagem do país que temos.

JMM: O que gostaria ainda de fazer na RTP?

HS: Gosto daquilo que faço e farei todos os trabalhos que me derem prazer e que ajudem a RTP.

2 comentários:

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a tua entrevista ao Helder Silva está muito bem conseguida. Conseguiste explorar temas sem te deixares cair em monotomias ou preguntas repetitivas. Parábens, continua assim...